XII LEGISLATURA 1ª sessão > ESCRITOS (XII 1ª) > |


Mestre Dinarte Machado - self-made organeiro de sucesso (Maio 2012)


Mestre Dinarte Machado — self-made organeiro de sucesso

                                                                                   por João Bosco Mota Amaral

 

Já não me lembro se alguém me falou dele ou se ele próprio se apresentou perante mim, propondo-se restaurar o órgão da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, anexo ao Palácio da Conceição, sede da Presidência do Governo da Região Autónoma dos Açores, na cidade de Ponta Delgada.

Em criança tinha eu ajudado a que o pequeno instrumento tocasse, acionando o fole de pedal que fornecia o ar para os tubos, nas novenas preparatórias da festa da titular da igreja, quando o calor chega aos Açores, em começos do mês de Julho e era com pesar que o sabia silencioso por falta de uso e natural decadência.    

            Dinarte Machado tinha antes conseguido, nos tempos livres do seu trabalho profissional na Fábrica do Açúcar, fazer tocar de novo um velho órgão de uma igreja no Nordeste, com conhecimentos empíricos, muita paciência e bastante ousadia. Apostei nas capacidades do voluntarioso jovem e confiei-lhe a tarefa, que foi bem-sucedida, embora posteriormente objecto de correcções e afinamentos, quando ele se tinha feito já um distinto profissional da sua arte.

Conhecendo a riqueza do património organístico açoreano, espalhado pelas muitas igrejas das nove ilhas do arquipélago, perguntei um dia ao jovem artesão amador se estaria disposto a especializar-se na matéria, mudando mesmo de profissão.

A resposta ao desafio foi positiva, direi mesmo entusiástica. Com apoio da Secretaria Regional do Trabalho, Dinarte Machado partiu para aprender e praticar com um dos poucos organeiros existentes então em Portugal e veio depois a fazer estágios de aperfeiçoamento no estrangeiro.

A sua curiosidade insaciável levou-o a estudar em profundidade tudo o que se referia à organaria ibérica dos séculos XVIII e XIX, transformando-se num especialista de referência no assunto.

Iniciou-se então um programa de recuperação e restauro dos órgãos existentes nos Açores, a cargo de Dinarte Machado. Ao mesmo tempo, sugeri aos Conservatórios e escolas de música existentes na Região que promovessem cursos para a formação de organistas, já que, sem quem os saiba tocar em condições, restaurar os órgãos não serviria para nada. Não tenho agora à mão dados precisos sobre o resultado de tais labores, mas foi notável o salto qualitativo verificado.

Sempre pronto para novos empreendimentos, Dinarte Machado abalançou-se a construir, de raiz, um órgão novo, com dois teclados e pedaleira, para a Sé-Catedral de Angra do Heroísmo, restaurada de alto a baixo, em tempo recorde, depois do terramoto de 1980 e do incêndio subsequente.

No concerto inaugural, o Maestro Antoine Sibertin-Blanc, titular do órgão da Patriarcal de Lisboa, arrebatou o público com uma notável execução da famosa tocata e fuga em ré menor, de Bach, talvez pela primeira vez ali ouvida, que os órgãos anteriormente existentes não tinham capacidade para reproduzir peça tão complexa e de sonoridades tão ricas.

Suponho que no órgão mais tarde feito para a Igreja do Colégio, no Funchal, Dinarte Machado, aproveitando a experiência, terá ido ainda mais além. Tentei interessar o Governo Regional dos Açores para um empreendimento análogo na Igreja do Colégio, em Ponta Delgada, mas até aqui não tive sucesso.

Sem novas encomendas nos Açores, Mestre Dinarte Machado mudou-se, com armas e bagagens, para o território continental da República — e não tem tido mãos e medir!...

O topo do topo foi por ele alcançado ao realizar o restauro dos seis órgãos da Basílica de Mafra. Um a um — que cada órgão é um instrumento único, com identidade própria — graças a mecenas esclarecidos, os órgãos sonhados pela magnificência do nosso rei Dom João V foram sendo resgatados ao silêncio derivado das suas múltiplas avarias, recobertas pela poeira dos séculos.

Graças à ciência e à perícia de Mestre Dinarte Machado, os órgãos de Mafra estão de novo em condições funcionais e têm soado, isoladamente ou em conjunto, para enriquecimento do culto litúrgico e para deleite e comoção dos apreciadores. E tantos eles são que, no concerto inaugural, foi preciso franquear as portas da basílica a fim de acolher o público não convidado, que tinha acorrido a Mafra em massa e dava sinais de estar disposto a entrar à força, para não perder a maravilha rara — que bem poucos devem ser os casos, se é que os há, de seis órgãos a tocar em conjunto no mesmo local.

Hoje, o jovem açor-americano — nascido em Fall River, Massachusetts, para onde os pais tinham emigrado, deixando o concelho de Nordeste, na ilha de São Miguel — que me entrou pela porta dentro do gabinete presidencial, lá pela década de oitenta do século passado, cheio de projectos e de vontade de vencer, é um Mestre-organeiro de referência, com prestígio nacional e mesmo para além fronteiras, reconhecido no meio musical e até já Comendador…

O Prémio Europa Nostra, atribuído pelo restauro dos órgãos de Mafra, coroa uma carreira feita a pulso, com muito estudo e trabalho, suor e inquietações, com amor à Arte, que aliás tem no nome, também.

Mestre Dinarte Machado alcançou sucesso bem merecido. E toda a comunidade, açoriana e nacional, por tal se regozija e honra.

 

 

Lisboa, 21 de Maio de 2012

 

 





[ www.parlamento.pt | paginaspessoais.parlamento.pt | administração ]
Copyright © MOTA AMARAL